Experimentar os cinemas africanos: dois olhares, uma luta, subversão das diásporas

Notícia

Experimentar os cinemas africanos: dois olhares, uma luta, subversão das diásporas

No dia 11 de junho, no Auditório da Facom, a turma de 2026.1 da disciplina de graduação Cinemas Africanos recebe estudantes do ICEIA para discutir filmes dos senegaleses Ousmane Sembène e Ben Diogaye Beye, em uma atividade aberta ao público.

Em atividade destinada a estudantes do curso técnico de Produção de Áudio e Vídeo do ICEIA – Instituto Central de Educação Isaías Alves, e aberta ao público em geral, estudantes da turma de Cinemas Africanos (COMC15) do primeiro semestre letivo de 2026 apresentam uma sessão com dois filmes senegaleses: Os Príncipes Negros de Saint-Germain-des-Prés (1975), de Ben Diogaye Beye, e Garota Negra (1966), de Ousmane Sembène. A sessão gratuita contará com a distribuição de material de apoio com informações sobre os cineastas e seus filmes e será apresentada e debatida por estudantes do Bacharelado Interdisciplinar em Artes com base nos estudos realizados durante o semestre.

Com apoio financeiro da Pró-Reitoria de Extensão, Arte e Cultura (PROEXT-AC), por meio da Chamada para Ações Pontuais de Extensão, Arte e Cultura 2026, e apoio logístico da Facom, a atividade é o principal resultado da disciplina Cinemas Africanos, um componente curricular que se dedica à compreensão aprofundada e crítica das cinematografias africanas. Coordenada em 2026.1 pelo Professor Marcelo R. S. Ribeiro e com a colaboração do tirocinista Marcelo Ricardo dos Santos (estudante de doutorado do Póscom), a disciplina visa a historicizar os cinemas africanos a partir de perspectivas contemporâneas, analisando as relações entre cinema, descolonização e a construção de uma imaginação coletiva multifacetada.

O formato didático da disciplina COMC15 é concebido para ser dinâmico e interativo, combinando aulas expositivas e dialogadas com a leitura prévia de textos e a exibição comentada de filmes. Esta abordagem permite aos estudantes não apenas absorver o conteúdo teórico, mas também desenvolver uma capacidade crítica de análise e interpretação das obras. A metodologia enfatiza a identificação das diversas linhagens e tendências cinematográficas africanas, a caracterização panorâmica das produções e a interrogação dos termos e conceitos que permeiam os estudos da área.

Como parte integrante e prática da disciplina, a atividade de extensão é um pilar fundamental. Ela se materializa na organização da sessão de filmes aqui divulgada, com material de apoio e debates, transformando o aprendizado em uma experiência de curadoria ativa. Para a sua realização, contamos ainda com a colaboração de Gustavo Oliveira Brandão (estudante de doutorado do Póscom), que atua como professor no ICEIA. Além de estudantes do curso técnico de Produção de Áudio e Vídeo dessa instituição, a atividade é aberta ao público em geral e se insere no eixo de experimentação curatorial do projeto de extensão Anarquivo: fórum impermanente de experimentação em audiovisual e outras artes, do GAS – grupo (an)arqueologias do sensível (gas.ufba.br).

Serviço
– O quê:

Sessão Experimentar os cinemas africanos: dois olhares, uma luta, subversão das diásporas
– Quando:
Dia 11 de junho, das 14h às 17h
– Onde:
Auditório da Faculdade de Comunicação da UFBA Rua Barão de Jeremoabo, s/n, Ondina, Salvador/BA, 40170-115
– Quanto:
Evento gratuito (sujeito à lotação do espaço)

Saiba mais sobre os filmes:

  • Os Príncipes Negros de Saint-Germain-des-Prés
    Título original: Les Princes noirs de Saint Germain-des-Prés
    1975 | 14” | classificação 12+
    Direção: Ben Diogaye Beye
    Sinopse:
    A obra acompanha um grupo de jovens senegaleses imigrantes no bairro intelectual parisiense, abordando suas ilusões, frustrações e as estratégias de sobrevivência diante do racismo cotidiano e da precariedade. Beye explora a esfera pública e as relações entre homens negros imigrantes e a sociedade francesa, incluindo suas tentativas de se relacionar afetivamente com mulheres brancas, seus empregos subalternos e o sonho de “vencer na França”.
  • Garota Negra
    Título original: La Noire de…
    1966 | 65” | classificação 14+
    Direção: Ousmane Sembène
    Sinopse:
    Garota Negra é um marco fundador do cinema africano. Conta a história de Diouana, uma jovem senegalesa analfabeta que vai trabalhar como doméstica na França, acreditando que ali conquistaria sua liberdade. No entanto, sua experiência se revela um pesadelo: confinada ao apartamento dos patrões, entre a cozinha e o quarto, ela percebe que se tornou “a escravizada do novo tempo”, expressão do neocolonialismo. O filme utiliza flashbacks para contrastar o Senegal (lugar de memória, utopia e afeto) com a França (lugar de clausura, racismo e objetificação). A fotografia em preto e branco denuncia, dicotomicamente, as relações de poder entre a mulher negra senegalesa e a mulher branca francesa.

    Conheça os cineastas:
  • Ben Diogaye Beye
    Ben Diogaye Beye, nascido em Dakar, Senegal, em 1947, é uma figura proeminente e multifacetada do cinema africano, atuando como roteirista, cineasta, produtor e jornalista. Sua formação cinematográfica ocorreu em Paris, onde adquiriu as bases técnicas e artísticas que moldariam sua visão. Contudo, foi a experiência prática, como aprendiz de mestres senegaleses como Ousmane Sembène, Djibril Diop Mambéty e Ababacar Samb-Makharam, que aprofundou sua compreensão das nuances da narrativa africana e da produção local.

    Antes de se consolidar como diretor, Beye desempenhou um papel crucial nos bastidores de diversas produções, atuando como assistente de direção em filmes notáveis como Touki Bouki (1973), de Mambéty, e co-escrevendo obras como Baks (1976), de Momar Thiam. Sua vivência como jornalista e radialista também enriqueceu sua perspectiva, conferindo-lhe uma sensibilidade aguçada para as realidades sociais e culturais de seu país.

    O trabalho de Ben Diogaye Beye é caracterizado por uma exploração sensível das relações humanas e das dinâmicas sociais no Senegal pós-colonial. Seus filmes frequentemente abordam temas como a infância, o amor, a esperança e os desafios cotidianos, com uma abordagem que mescla a observação atenta com a poesia visual. Ele se destaca por sua capacidade de extrair emoção e significado de narrativas aparentemente simples, refletindo a complexidade da experiência africana.

    Entre suas obras mais significativas, Les Princes Noirs de Saint Germain-des-Prés (1975) marcou sua estreia como diretor. Com Samba Tali (1975), Beye conquistou reconhecimento internacional, sendo agraciado com o prêmio de Melhor Curta-Metragem no Festival Internacional de Cinema do Conjunto Francófono em Genebra (1975) e o Tanit d’Or de Melhor Curta-Metragem no Festival de Cinema de Cartago (1976). Mais recentemente, Un Amour d’Enfant (2004) foi laureado com o Prêmio Especial do UNICEF pelos Direitos da Criança.

    Além de sua filmografia, Beye também contribuiu significativamente para o cinema senegalês ao pesquisar e escrever o roteiro original de Thiaroye ’44, projeto que mais tarde se tornaria o aclamado filme Camp de Thiaroye, dirigido por Ousmane Sembène e Thierno Faty Sow. Sua atuação como membro ativo e líder da Associação de Cineastas Senegaleses solidifica seu papel não apenas como criador, mas também como um defensor e promotor do cinema, não apenas no Senegal, mas na África em sua diversidade. Ben Diogaye Beye, com sua obra e dedicação, continua a enriquecer o panorama cinematográfico do continente, oferecendo perspectivas autênticas e ressonantes.
  • Ousmane Sembène
    Ousmane Sembène (1923-2007) transcendeu a mera condição de cineasta, emergindo como um arquiteto fundamental da narrativa africana autônoma no século XX. Nascido em Ziguinchor, Senegal, sua trajetória inicial foi marcada por uma vivência multifacetada: de operário e estivador em Marselha, onde passou uma década e se filiou ao Partido Comunista Francês, até combatente na Segunda Guerra Mundial e ativista sindical. Essa imersão nas realidades do trabalho e da luta social forjou sua consciência política e o impulsionou à escrita, onde se destacou como romancista com obras como Le Docker Noir (1956) e Les Bouts de Bois de Dieu (1960), antes de abraçar o cinema (sem ter abandonado a literatura).

    Sembène visionou o cinema como uma “escola noturna do povo”, um veículo potente para a conscientização e a descolonização mental. Sua formação técnica no Gorky Film Studio, em Moscou (1961-62), sob a tutela de cineastas soviéticos como Mark Donskoj e Sergej Gerasimov, aprofundou sua compreensão do potencial cinematográfico como ferramenta de transformação social. Ao retornar ao Senegal, Sembène iniciou uma produção cinematográfica, inicialmente com uma câmera soviética de 16mm e sobras de película, que desafiou as representações eurocêntricas da África, buscando dar voz e agência aos povos africanos. Ele cunhou o termo mégotage (cinema-bituca) para descrever a engenhosidade e a necessidade de recursos no cinema africano, produzindo filmes sob sua companhia Filmi Doomi Reew (Film Domirev).

    Seja em suas primeiras experiências, como La Noire de… (Garota Negra, 1966), ou em suas obras mais tardias, como Moolaadé (2004), seus filmes são crônicas incisivas das complexidades pós-coloniais, abordando temas como neocolonialismo, corrupção das elites, patriarcado e a persistência de tradições em um mundo em mutação. Sembène não se furtou a criticar tanto os colonizadores quanto as novas lideranças africanas, utilizando uma linguagem cinematográfica que, embora didática em sua função, era rica em simbolismo e expressividade.

    Ao longo de sua carreira, Sembène foi amplamente reconhecido, sendo convidado a integrar os júris oficiais de festivais de renome como Cannes (1967), Berlim (1977) e Veneza (1983), além de receber prêmios em diversas edições desses festivais. Ele foi um griot moderno, um contador de histórias que, através da tela, instigava o debate e empoderava seu público a questionar a autoridade e a forjar sua própria identidade. Sua obra permanece um farol para o cinema africano, inspirando gerações a contar suas próprias histórias com autenticidade e impacto, e consolidando-o como o Pai do Cinema Africano.